Facebook investe em estudo que busca ler sinais cerebrais

Experimento feito por neurocientistas quer criar dispositivo que conseguiria ‘ler mentes’. Preocupações acerca da privacidade são levantadas

Em 2017, o Facebook anunciou planos para o desenvolvimento de um dispositivo que permitisse que os usuários digitassem 100 palavras por minuto apenas por pensamento. Agora, a gigante da tecnologia revelou que tem financiado pesquisas universitárias com voluntários para aplicar algo que soa como ficção científica.

Nesta terça-feira (30), parte dos estudos foi descrito em um artigo da Universidade da Califórnia. De acordo com o artigo, os pesquisadores estão criando “decodificadores de fala” capazes de determinar o que as pessoas estão tentando dizer a partir da análise de seus sinais cerebrais.

Para os especialistas, o estudo é importante, já que pode ajudar a mostrar se um dispositivo cerebral é viável. Porém, para alguns cientistas, a iniciativa mostra que será necessário o estabelecimento de normas sobre como os dados cerebrais são coletados, armazenados e utilizados.

No relatório publicado na Nature Communications, os pesquisadores da UCSF, sob a liderança do neurocientista Edward Chang, usaram placas de eletrodos, chamadas de ECoG, que foram implantadas diretamente no cérebro dos voluntários. Dessa forma, os estudiosos puderam ouvir em tempo real as respostas dos participantes aos questionamentos feitos durante os testes.

Segundo o Facebook, o projeto de pesquisa ainda está em andamento, e o objetivo final do financiamento é a restauração da capacidade de se comunicar de pessoas com deficiências na fala. No futuro, a empresa deseja criar um headset que permita que os usuários controlem as músicas ou interajam em realidade virtual a partir de seus pensamentos.

Para esse fim, o Facebook também está financiando um trabalho de desenvolvimento de sistemas que “escutam” o cérebro por fora do crânio, usando fibras ópticas ou lasers para medir mudanças no fluxo sanguíneo, semelhante a uma máquina de ressonância magnética. Tais padrões representam apenas uma pequena parte do que acontece no cérebro, mas podem ser suficientes para atuar em um conjunto limitado de comandos.

“Ser capaz de reconhecer até mesmo um punhado de comandos imaginários, como ‘casa’, ‘selecionar’ e ‘excluir’, forneceria maneiras totalmente novas de interagir com os sistemas de realidade virtual atuais – e os óculos de realidade aumentada do futuro”, escreveu o Facebook em um post. Como parte da iniciativa, o Facebook pretende demonstrar um protótipo do sistema até o final do ano.

Questões de privacidade

Pesquisas sobre a interação entre cérebro e computador estão evoluindo rapidamente. Em 16 de julho, a Neuralink, empresa criada pelo fundador da SpaceX, Elon Musk, disse que espera implantar eletrodos nos cérebros de voluntários ​​em dois anos. No entanto, o público tem motivos para duvidar de que as empresas de tecnologia possam ter uma visão confiável de seus cérebros. No mês passado, por exemplo, o Facebook recebeu uma multa recorde de US$ 5 bilhões por não deixar claro aos usuários sobre como suas informações pessoais são usadas.

“Para mim, o cérebro é o único lugar seguro para a liberdade de pensamento e de fantasias”, afirmou ao MIT Technology Review Nita Farahany, professora da Duke University especializada em neuroética. “Estamos chegando perto de cruzar a fronteira final da privacidade na ausência de qualquer tipo de proteção.”

O Facebook enfatiza que todos os dados do cérebro coletados na UCSF permanecerão na universidade, mas os funcionários do Facebook podem ir até lá para estudá-lo.

Não se sabe quanto dinheiro o Facebook está fornecendo à universidade nem quanto os voluntários sabem sobre o papel da empresa. Um porta-voz da universidade, Nicholas Weiler, se recusou a fornecer uma cópia do contrato de pesquisa ou os formulários de consentimento assinados pelos pacientes.

Apesar de um leitor cerebral poder ser uma maneira conveniente para controlar dispositivos, o projeto também significa que o Facebook poderia acessar sinais cerebrais que poderiam, em teoria, fornecer muito mais informações, como a forma como as pessoas estão reagindo às postagens e atualizações.

“Os dados do cérebro são ricos em informações e sensíveis à privacidade, é uma preocupação razoável”, disse Marcello Ienca, pesquisador de interface cerebral na ETH, em Zurique, ao MIT. “As políticas de privacidade implementadas no Facebook são claramente insuficientes.”

Fonte: itmidia.com